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E mais
Tony Bianco puro talento Aos 77 anos de idade, o projetista criador de modelos como Bianco e Fórmula Jr. ainda faz carros artesanalmente em sua própria garagem
TEXTO Rafael A. Freire FOTOS Cláudio Larangeira
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| Na seqüência, Bianco mostra com orgulho a estrutura de sua oficina, o método de desenvolvimento – que começa com protótipos de arame – e o resultado final de todo este trabalho, o Cisitalia |
Hoje, com 77 anos, Bianco mora numa casa no bairro paulistano da Lapa. Diferentemente da maioria dos aposentados, o lugar onde gasta a maior parte de seu tempo é na pequena oficina no fundo de seu quintal. Um lugar que mede cerca de seis metros de comprimento por quatro de largura. Lá, a primeira coisa que chama a atenção é uma bancada que acompanha as paredes do fundo e da direita, onde pode ser encontrada uma organizada fileira de ferramentas. Nada além de equipamentos básicos, como os que usamos para fazer qualquer tipo de gambiarra no final de semana. São martelos, chaves de fenda e diversos alicates. Nas paredes, é possível apreciar diversos pôsteres que mostram alguns de seus mais bem-sucedidos projetos e outras fotos de sua carreira. Esta decoração reforça ainda mais o romantismo da humilde oficina. Neste simples ambiente, Bianco produz o que de melhor faz nesta vida: seus carros.
Atualmente, Bianco desenvolve veículos apenas por encomenda. Seu último trabalho levou dez meses: um raríssimo Cisitalia, que até mesmo em fotos é difícil de ser encontrado. Bianco o reproduziu sobre um chassi de Chevette com motor Fiat, usando como referência apenas duas fotos laterais do modelo. Engana-se quem imagina que, antes de botar a mão na massa, ele chegou a fazer qualquer tipo de esboço no papel. O protótipo foi um carro em miniatura feito de arame. “Se eu fosse desenhar alguma coisa, demoraria duas vezes mais tempo para ficar pronto”, justifica. Para ele, não há medida mais precisa do que seus próprios olhos e os cálculos que faz a partir das fotos. Os únicos gabaritos que ajudaram na produção do modelo foram feitos por ele mesmo, alguns de arame, outros de papelão.
A partir dessas escassas medidas é que o carro foi ganhando suas formas. Bianco fez todo o seu design moldando chapas de alumínio de espessura fina com marteladas, em cima de um largo tronco de superfície lisa, que, junto com a bancada, ocupa boa parte do limitado espaço de sua oficina. Quando questionado a respeito de por onde começou a fazer o carro, ele responde categoricamente: “Comecei pela frente. Já tinha a grade e os faróis, aí então ficou fácil”, ironiza.
Mesmo com a grande experiência que tem na indústria de automóveis brasileira, Bianco nunca chegou a estudar engenharia. “Se eu fosse engenheiro, não estaria fazendo carro martelando alumínio”, diz com humildade. Foram 55 anos de trabalho no setor. Só depois do governo Collor que Bianco se aposentou. “Depois que ele disse que nossos carros eram carroças, tudo começou a ir por água abaixo”, conta.
Longe do trabalho há dez anos, trancado em um apartamento, Bianco sofreu uma profunda depressão, que acabou depois de mudar para a casa onde reside atualmente, na qual pôde voltar a pôr a mão na massa em sua oficina de fundo de quintal. No início, fazia apenas móveis para casa. O trabalho com carros só foi retomado mesmo quando um amigo colecionador o desafiou a fazer um Fórmula Jr.. Como muitas outras vezes na vida, o italiano atingiu o objetivo. Ao relembrar as vitórias de sua vida, Bianco é humilde o suficiente para dizer que Deus o capacita para muitas coisas. “Acredito que todos temos alguma inspiração divina. Eu já tive muitas”, conta o veterano, que até hoje diz dispor dessa ajuda.
Ele garante que continuará desenvolvendo carros enquanto tiver vigor para trabalhar. “Para mim, o segredo para uma vida melhor é saber envelhecer. Por isso, continuarei fazendo o que gosto até não poder mais”, afirma. Após entregar o Cisitalia, já terá outro desafio pela frente – e com certeza vai superá-lo.
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